domingo, 1 de novembro de 2009

Artigo 2

Tv digital interativa, podcast, blog, ambientes adaptados com alta tecnologia e redes de relacionamento podem ser grandes aliados da aprendizagem, do ensino e usados em diversos ambientes criativos. Porém, muitas vezes, as inúmeras possibilidades trazidas pelo ambiente virtual são taxadas, por educadores e diretores de instituições de ensino, como secundárias. Para tornar a educação brasileira plugada nas tecnologias atualizadas a cada minuto é preciso haver superação de outros tantos entraves estruturais, filosóficos e culturais. Políticas que limitam o acesso dos alunos à internet ou a telefones móveis, a escassez de ferramentas e o analfabetismo digital são alguns dos itens que precisam ser modificados.

Segundo pesquisa feita pela consultoria Ibobe Nielsen Online, realizada no primeiro semestre de 2009, a estimativa é que aja 62, 3 milhões de pessoas com acesso à internet no Brasil, isto é, cerca de 32% da população. Porém, a quantidade de pessoas que não sabe utilizar o computador ainda é grande. O analfabetismo digital, como é conhecido esse fenômeno, atinge aproximadamente 26% da população brasileira de acordo com levantamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe –Cepal (GATTI, 2005).

A internet oferece várias ferramentas para a navegação em seu ambiente, agindo como uma verdadeira incubadora mediática, já que dá espaço para a criação de diversos dispositivos comunicacionais. (LEMOS, p.126)

Esse distanciamento que existe entre tecnologia e educação serve como estímulo para diversas iniciativas públicas e privadas. A partir dessa conscientização do conhecimento dos meios digitais é possível ampliar os horizontes da educação. A criação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, é uma das tentativas de estimular a inserção tecnológica nas escolas. A norma determina a expansão da ‘alfabetização digital’ em todos os níveis de ensino, do fundamental ao superior. Por outro lado, é comum observar escolas da rede pública com déficit de computadores, ou até mesmo com demanda de professores treinados para interagir com o universo da multimídia. O professor de português e especialista em inclusão digital em escolas públicas e privadas, Carlos Albuquerque explica que há uma grande diferença no uso da informática por diferentes alunos e a falta de preparo dos educadores.

O que acontece muito nas escolas é quando os próprios professores não sabem utilizar as tecnologias ou, os laboratórios estão inativos e quebrados. A maioria dos jovens lida muito bem com o computador, muito devido à febre de lan houses, por outro lado, com os adultos acontece o contrário, a minoria sabe utilizar. (ALBUQUERQUE, 2009)


Segundo dados do Ministério da Educação existem 80 projetos que envolvem o uso de tecnologia na educação. A principal proposta do governo é o Programa Nacional de Tecnologia Educacional – Proinfo, criado em 2007 pelo Decreto 6.300. Entre as principais iniciativas estão a inserção de atividades pedagógicas que utilizam conteúdos digitais nas salas de aula, o estímulo da autonomia do estudante no processo de aprendizagem. No plano também está a presença de laboratórios de informática e conexão à internet, sendo um computador por aluno, um projetor multimídia e oferta de conteúdos educacionais e interativos, como o portal do professor e a TV Escola.

Desde de 2003, a Secretaria Nacional de Educação à Distancia desenvolveu a primeira TV Escola Digital Interativa, com tecnologia de transmissão via satélite. O objetivo da ferramenta multimídia é enriquecer o processo de ensino e aprendizagem e a educação continuada dos professores.

Um receptor digital possibilita a recepção da TV Escola Digital Interativa e, o mesmo está sendo distribuído e instalado nas escolas públicas, como também um canal de retorno adaptado para a proposta. Professores estão recebendo materiais complementares e guias de estudos, além de acessar conteúdos educativos, através do controle remoto. Eles ainda podem surfar pela TV interativa e acompanhar notícias do próprio portal do professor, gravar vídeos e participar de enquetes para melhorias educacionais. A meta da secretaria é atingir gradativamente os beneficiários das 180 mil escolas públicas de ensino básico, do país.

É notável, porém, observar o abismo existente entre tecnologia e os alunos das redes públicas do país, mesmo incluídos em programas como o realizado pela Secretaria Nacional de Educação à Distancia . Há críticas de diversas vertentes sobre a quantidade de horas de acesso, os conteúdos que os alunos podem estar conectados, como também o tipo de inclusão digital a ser oferecida nas escolas.
Para o doutor da Universidade americana Northwestern, o paulistano Paulo Blikstein, que estuda o uso de tecnologia na educação, a interatividade deve ir além da consulta à internet.

Muita gente acha que produzir conhecimento é escrever um trabalho, mas pode ser criar um robô, um programa para coleta de lixo no seu bairro. Em muitas escolas, usar a tecnologia se resume a buscar dados para um trabalho. Mas é preciso aproveitar toda a motivação incrível que as crianças têm para criar, para mexer com tecnologia. O trabalho que eu faço é usar a tecnologia para construir projetos relevantes para a vida delas. Aquilo que a gente chama de aprender fazendo. Faz um robô, cria um programa, cria um produto, vê que não funciona direito, faz de novo. Se a gente realmente quer criar uma geração de cientistas para contribuir para o avanço tecnológico do Brasil, a gente tem de ensinar a ciência do século 21 e não a do século 19. (Cafardo, 2008)

Jogos, softwares de criação, o estímulo a compra de laptops deveriam ser incorporados nos ambientes educacionais, pela capacidade interativa e lúdica. A construção do conhecimento é possível a partir da realidade dos alunos. Eles precisam visualizar a usabilidade do conteúdo para interagir com o mesmo. E para isso os educadores devem adotar a mesma ideologia.

A responsabilidade ética, política e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua capacitação, sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência docente, se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela requer uma formação permanente do ensinante. Formação que se funda na análise crítica de sua prática. (Freire, 1992)

Segundo a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, todas as unidades da rede educacional estão equipadas com computadores conectados a internet, internet, webcams, projetor multimídia, impressoras e softwares. Ainda de acordo com a secretaria, os alunos têm aula de informática educativa semanalmente no horário regular das aulas e contam com professor orientado.
O que acontece na capital paulista ocorre em muitas outras cidades do país. A visita aos laboratórios são necessárias, mas consideradas insuficientes para possibilitar a inclusão tecnológica na educação dos brasileiros, de forma interativa e abrangente. De forma a haver a formação de cidadãos que acompanhem o ritmo frenético da tecnologia.

Enquanto não acontece o debate sobre as aplicações do ciberespaço à vigilância e o controle dos cidadãos, assim como a militarização do espaço satelital, incidem cada vez mais na esfera pública, em todas as latitudes, a propaganda, a manipulação e as estratégias deliberadas de condicionamento da opinião pública. (MATTELART, 2004 apud MORAES, 2006, p. 237)

A junção entre aulas em laboratórios com professores plugados e o estímulo criativo, por meio da utilização de softwares e dos novos meios de comunicação pode ser o ambiente considerado ideal para o uso da multimídia como forma de ampliação do conhecimento. Porém, não esquecendo a vigilância dos conteúdos acessados pelos aprendizes.

The Advisory Board recognized the need for new tools for filtering that (technologies like blog, podcast and video; grifos nossos) do a better job of keeping objectionable content out of the way while allowing useful tools and content to be accessed. (THE NEW MEDIA CONSORTIUM, 2009, p. 4)

Não somente a TV Escola foi modernizada para desenvolver o sistema educacional, como a própria TV aberta digital, ainda em testes, pode representar uma forte ferramenta pedagógica.
A riqueza de detalhes e a recepção instantânea das informações fazem da televisão o veículo de comunicação mais popular no Brasil. A alta definição e a qualidade de imagem é o que possível encontrar da TV digital, nos dias de hoje, porém uma versão interativa com até oito programas por canal é a proposta que deve atingir as casas dos brasileiros daqui a cerca de cinco anos.

O formato japonês da TV digital adotada pelo governo brasileiro (ISDB) deve ficar muito mais interativo e contribuir para a inclusão e democratização das informações, já que 90% da população têm televisão. A venda interativa de cursos, jogos, consultas personalizadas, pay-per-view, como a inserção de mais canais estão sendo esperados para esse novo modelo digital. Onde hoje se transmite um canal será possível transmitir oito novas programações. Um a gama de canais que irão do 7 VHS até o 69 UHF.

Segundo o Fórum Nacional da Tv Digital (divulgado pelo Coletivo Brasil de Comunicação Social, o Intervozes) o sistema Ginga, que tem a tecnologia necessária para possibilitar interatividade está em fase de especificação e precisa ser aprovada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas.

Algumas emissoras já estão testando um modelo provisório de interatividade, com a inserção de ferramentas da internet, como blogs, twitter e comunidades virtuais. Para que os cidadãos possam usar a TV como forma de enviar dados aos provedores de conteúdo e interagiar ainda mais com a educação, é necessário um canal de retorno, cujo formado está sendo decidido pelo governo e organizações sociais. Esse canal poderá ser via telefone, satélite, banda de radiodifusão, Wi-Fi ou Wi-Max. Há uma grande curiosidade em torno do modelo que será uma porta aberta para a comunicação, como também será a junção das mídias em prol, entre outras finalidades, da educação.

Os níveis de interatividade dessa TV podem ser classificados como básico, intermediário e mais elevado. No primeiro, o telespectador poderia decidir qual câmera deve assistir em um jogo de futebol, por exemplo, ou decidir a programação através de uma lista de opções. No segundo momento, haverá um canal de retorno, que possibilita o envio de conteúdo dos telespectadores para as emissoras, e ainda utilização de e-mail, votação e enquetes e transações bancárias. No patamar mais avançado, desse formato, será possível se comunicar tanto com as produtores de informações, como com outras pessoas.

Uma outra discussão existente é sobre a definição de interatividade, que está também sendo definida. Enquanto uns integram o debate afirmando que a interação está na maior participação do cidadão, de uma forma muita mais dinâmica, outros acreditam que o fato de haver opções excluí a interação.
O que é há de fato é o debate acerca do formato da TV digital interativa e a idéia de que a efetivação da mesma traga benefícios para a educação das pessoas. E através da interação com as múltiplas formas de mídia, os alunos poderão acessar e armazenar informações de uma forma mais ampla do que é oferecido pelas escolas.
Essa mudança de formato da inserção multimídia e tecnológica na educação pode trazer benefícios sociais, incalculáveis. A ampliação do processo reflexivo e as associações simbólicas são fundamentais para a construção da identidade das pessoas e da sociedade.

É A profusão de materiais simbólicos pode fornecer aos indivíduos os meios de explorar formas alternativas de vida de um modo imaginário e simbólico; e conseqüentemente permitir-lhes uma reflexão crítica sobre si mesmos e sobre as reais circunstâncias de suas vidas. (Thompson 1995, p. 186)


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, Carlos. Entrevista concedida para a autora, deste artigo, por e-mail. 03 jul 2009. São Paulo.

CAFARDO,Renata. Para criar um geração de cientistas temos que ensinar a ciência do século 21. Disponível em: < http://www.estado.com.br/editorias/2008/06/15/ger-1.93.7.20080615.10.1.xml>. Acesso em 09 jul 2009

FREIRE, Paulo. Ensinar, aprender:
leitura do mundo, leitura da palavra. Pedagogia da esperança, Paz e Terra, 1992. Disponível em :< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142001000200013->.Acesso em 10 jul 2009.

GATTI, Daniel Couto. Sociedade informacional e an/alfabetismo digital: relações entre comunicação, computação e internet. Bauru, SP: EDUSC; Uberlândia, MG: 2005.

LEMOS, André. Cibercultura-Tecnologia E Vida Social Na Cultura Contemporânea. Editora: Sulina 1ª edição 2002

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Portal do Mec. Disponível em:
<http://www.portalfederativo.gov.br/pub/Inicio/InclusaoDigitalEncontro/Inclusao_Digital_Carlos_Bielschowsky.pdf>

MORAES, Dênis de. Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad. 2006.

THE NEW MEDIA CONSORTIUM. The Horizon Report:2009 K-12 Edition. Disponível em: < http://www.nmc.org/horizon> Acesso em: 09 jul 2009

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social critica na era dos meios de comunicação de massa. 1. Ed. Petrópolis: Vozes, 1995.

INTERVOZES. Disponível em: Acesso em: 09 jul 2009