
Pistas para o Alzheimer
Caroline Pellegrino
carolp_zen@hotmail.com
“Eu ainda lembro, ainda lembro o dia em que eu te encontrei…” A possibilidade de recordar o trecho de uma canção famosa, como Um amor, Um Lugar, de Herbert Vianna, o poder da memória são inerentes à mente humana. Porém, para muitas pessoas esse prazer desaparece silenciosamente, a ponto de o esquecimento ser a única certeza. Essa é uma realidade para cerca de 2 milhões de brasileiros com a doença de Alzheimer. As causas dessa alteração devastadora da memória ainda são misteriosas para a ciência. Um trabalho realizado por cientistas do Instituto de Gladstone de Doenças Neurológicas e a Universidade da California sugere um caminho a ser trilhado. O estudo pode representar uma esperança para doentes, pesquisadores e familiares ansiosos pela cura e conhecimento desse mal.
A doença de Alzheimer (DA) causa perda progressiva das função cognitiva (do conhecimento) e pode resultar na morte. Começa no hipocampo, área onde esta localizada a memória e se alastra progressivamente para outros locais do cérebro. Caracteriza-se pelo depósito de moléculas (protéicas) de amilóides e outras alterações no mecanismo responsável pela razão, inteligência e demais ações humanas. Segundo a Academia Brasileira de Neurologia, o mal atinge pessoas com idade avançada e as mulheres apresentam mais pré-disposição para adquirirem. Esquecimentos, confussões podem ser sintomas da DA, considerada, o pior tipo de demência. Pode ser hereditário, mas ainda não há certezas sobre a mesma.
A pesquisa americana revela que o controle do nível de ácidos gordos (graxos) no cérebro pode ajudar no tratamento da doença. Os ácidos graxos são formados por átomos encontrados em gorduras e óleos. O teste realizado em ratos de laboratório mostrou que reduzindo o excesso do nível de ácido diminui problemas de memória dos animais e mudanças de comportamento.
Os pesquisadores disseram que níveis de ácidos graxos podem ser controlados através de dieta ou medicamentos. Cientistas observaram os ácidos “gordos” no cérebro dos ratos normais e os compararam com aqueles em ratos geneticamente modificados para terem disposição à doença. Eles identificaram aumento nos níveis de ácidos graxos chamados de ácido araquidônico no cérebro dos ratos com Alzheimer. A emissão dele é controlada pela enzima PLA2 (conhecida como fosfolipase PLA2).
Os cientistas novamente usaram modificação genética para diminuir os níveis de PLA2 nos animais e descobriram que mesmo uma parcial redução preveniu deteriorização de memória e outros danos.
O doutor Rene Sanchez-Mejia, que trabalhou no estudo, disse: “A mudança mais relevante que nós descobrimos nos ratos com Alzheimer foi um aumento de ácido araquidônico e produtos relacionados no hipocampo,um centro de memória que é afetado rapida e severamente pela doença do Alzheimer”.
Otimismo- Doutor Lennart Mucke, que liderou a pesquisa, acrescentou: “ Em geral, os níveis de ácidos graxos podem ser regulados por dieta ou medicamentos. “Nossos resultados têm implicações terapêuticas importantes porque eles sugerem que inibição da atividade do PLA2 (fosfolipase) e pode ajudar a prevenir danos neurológicos da doença. Mas muito trabalho precisa ser feito antes que esta novela de estratégia terapêutica possa ser testada em humanos”.
Para a coordenadora do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) Marcia Lorena Chaves, o trabalho mostra uma maneira de se estudar a doença. “É um estudo interessante para o conhecimento do mecanismo do Alzeheimer que necessita ser continuado. É uma hipótese para tentar entender porque se forma amilóide. Quem sabe a doença tem a ver com isso”.
Apesar de serem desconhecidas as causas e a cura do mal, há tratamentos e hábitos que podem aliviar a devastação da mente, e em alguns casos evitar a doença . “Manter a mente ativa e fazer exercícios físicos pode retardar o aparecimento da doença em seis meses. Tratamentos com medicamentos podem aliviar mas não há cura. Sabe-se que a prevenção deve começar desde a juventude”, complementa Marcia Lorena.
Dicas para a prevenção
- Pratique atividade física três vezes por semana (média de 45 min)
- Estabeleça uma atividade regular de leitura
- Experimente aprender um instrumento musical
- Jogos de tabuleiros mantêm a mente ativa
- Dance
Para quem tem a doença:
- Evite ficar em frente da TV por períodos longos de tempo
- Tenha uma rotina diária estabelecida (fazer tudo o que é capaz de fazer, considerando as dicas acima)
- Realize atividade de lazer
- Faça atividades físicas (respeitando também o grau da doença, depende de cada paciente)
Fonte: Academia Brasileira de Neurologia (ABN)
Conheça os sintomas e faça o teste.
1. Perda de memória que afeta as habilidades profissionais - é normal esquecer compromissos nomes de colegas, ou número de telefone conhecidos e lembrar depois. As pessoas com demência e DA esquecem com mais frequência e não se lembrar depois.
2. Dificuldade em executar tarefas domésticas - pessoas muito ocupadas podem deixar feijão no fogo, de vez em quando, e só lembrar no final da refeição. Pessoas com o DA podem preparar uma refeição, mas não somente esquecer de servi-la, como também de que a preparou.
3. Problemas com vocabulário - todo mundo tem dificuldade em encontrar a palavra correta algumas vezes; as com DA podem esquecer palavras muito comuns ou substituí-las por inapropriadas, tornando a frase incompreensível.
4. Desorientação de tempo e espaço - é normal esquecer qual o dia da semana você está ou o destino, por um momento. Com DA, as pessoas podem se perder na rua onde moram, não sabendo onde estão.
5. Incapacidade para julgar situações - uma pessoa pode ficar tão entretida em sua atividade que por alguns instantes esquece da criança que está cuidando. Pessoas com DA podem esquecer totalmente a criança que estão cuidando. Eles podem também se vestir indevidamente.
6. Problemas com raciocínio abstrato - fazer a conferência de um extrato bancário pode ser difícil se a tarefa for mais complicada que o usual. Quem tem a doença pode esquecer totalmente o que os números representam e o que deve ser feito com eles.
7. Colocar objetos em lugares errados - é comum perder a carteira ou chaves por tê-los colocado em lugar errado. A DA faz com que se coloque objetos em locais totalmente inadequados, como: o ferro elétrico no congelador.
8. Mudanças de humor ou comportamento - todo mundo fica triste ou mal-humorado de vez em quando. Alguém com a DA pode rapidamente passar de uma situação de calma para lágrimas.
9. Mudança da personalidade - há mudanças eventuais de personalidade envelhecemos. Porém, Aqueles com a doença muda drasticamente, tornando-se confusa e medrosa.
10. Perda de iniciativa - É normal ficar cansado de serviços de casa, das atividades profissionais ou obrigações sociais, mas a maioria das pessoas retoma suas iniciativas. As com DA podem se tornar muito passivas e necessitar de estímulos para se envolver de novo em alguma atividade.
Fonte: Associação Brasileira de Alzheimer e Doenças Similares
Alimentação saudável pode fazer diferença
Os altos índices de gordura são apontados como fatores de risco não só para o corpo mas para a memória. A pesquisa realizada no Instituto de Gladstone de Doenças Neurológicas e a Universidade da California sobre os ácidos graxos reforça a idéia de que uma dieta equilibrada pode ser determinante para o surgimento de algumas doenças.
Segundo o professor de nutrição e bioquímica da Universidade Federal de Pernambuco Hernando Flores, os ácidos graxos são encontrados em gorduras, óleos e carnes. “Não se pode afirmar ainda quais alimentos possam ser prejudiciais para o cérebro, mas há aqueles que representam risco para a saúde em geral, como alimentos gordos”, declarou. De acordo com Flores, os peixes devem substituir carne e frango pois têm menor quantidade de gordura. Mesmo assim, ele recomenda um consumo de no máximo cem gramas de gordura por dia, o equivalente a um bife pequeno.
O bioquímico ainda acrescenta que uma dieta balanceada pode ser benéfica. “Uma boa alimentação deve conter grande quantidade de verduras e frutas. Cerca de três porções de cada por dia”, afirma.
Lembranças apagadas
Ao olhar para o porta retrato, dona Zélia Guerra, 84, não se recorda de quem a imagem pertence. Formada em letras, amante da leitura, a mulher ativa ainda assim não foi poupada da doença. Há 4 anos, os sintomas apareceram e os familiares rapidamente detectaram DA. A partir daí a história de uma vida inteira se transformou em flashes de lembrança.
“Ela era muito ativa, viajou bastante pelo Brasil, conheceu outros países, lê muito bem até hoje, mas agora o que fala não tem sentido”, contou a cunhada e responsável pela idosa Olímpia Cristina Negreiros. Solteira, sem filhos dona Zélia mora com uma cuidadora, no bairro da Boa Vista. Durante a reportagem ela perguntou o nome dos visitantes e após cinco minutos a pergunta: Como vocês se chamam?
A idosa se alimenta com peixe e fígado, evita comer gordura e açúcar além de fazer atividades, quatro vezes por semana, entre fisioterapia e terapia ocupacional. Ela ainda toma remédios duas vezes ao dia. Para a família, o tratamento iniciado há quatro anos possibilitou uma melhora aparente. “Depois dos medicamentos e atividades ela melhorou fisicamente, mas a memória parece estar estacionada”, acrescenta Olímpia.
Apesar da deficiência, a alegria é marca registrada dessa mulher que usa batom vermelho, blush e expressa o sentimento com risos e abraços que parecem iluminar a consciência de todos.