domingo, 30 de agosto de 2009

Artigo 3

Seguro contra a crise: o segredo do desenvolvimento econômico está no capital humano


Produtividade. Essa é considerada uma variável estratégica e segura para garantir a estabilidade da economia. Aumentando a produção interna, aumenta consequentemente a renda das pessoas, a quantidade de vagas de empregos e a prevenção à crise mundial. O Brasil é um dos países com maiores chances de recuperar as perdas causadas pela onda internacional de falências bancárias, proveniente do estouro imobiliário nos EUA, no início da década. O país apresenta um cenário favorável; não somente por apresentar grande potencial natural, energético; como também humano. E, em meio a essa conjuntura, o fortalecimento do emprego, mediante a educação pode ser o maior ativo para amortecer os impactos negativos do mercado. Historicamente, os investimentos sociais em educação foram determinantes no aumento da competitividade e o desenvolvimento econômico das nações, como foi o caso da Coréia do Sul. Considerado o maior tigre asiático, o país atingiu um patamar de crescimento através de investimentos robustos em treinamentos e conhecimento tecnológico.

A criação de postos de trabalho e o aquecimento das atividades do comércio estão também relacionados à quantidade de investimento não somente em infra-estrutura, mas também em capital humano, que impulsionam o consumo. A produção, dessa forma, pode ser alavancada através de estratégias educacionais, tanto nos âmbitos fundamental e médio quanto no superior. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista concedida à edição de maio/junho de 2009 à revista Carta Capital, “se conseguirmos manter o Produto Interno Bruto (PIB) em patamar positivo, vamos continuar a criar empregos”.

A medida individual de produção mais importante numa economia é o produto interno bruto (PIB), que mede o valor total dos bens e serviços gerados dentro dos limites geográficos de uma economia. Há uma distinção entre o PIB nominal e o real. O primeiro mede o valor dos bens e serviços pelo valor atual de mercado. Já a outra estatística tenta medir o volume físico (quantidade) do produto. (SACHS, 1998). Uma economia que valoriza o conhecimento estará à frente das outras nações e segura contra as turbulências do mercado. A Coréia do Sul, por exemplo, é um país com 89 mil quilômetros quadrados, o equivalente a 1% do território brasileiro e exporta três vezes mais do que o Brasil.

O país asiático só conseguiu atingir o patamar de nação exportadora de bens como automóveis, eletrônico, celulares, entre outros itens tecnológicos; através de uma educação rigorosa e de qualidade, voltada ao desenvolvimento cognitivo. Mesmo depois da Guerra da Coréia, a população já estava totalmente alfabetizada. Hoje, o país esnoba uma colocação privilegiada, comparado a países desenvolvidos e sendo um dos poucos do mundo que tem educação secundária universal, isto é, toda a população conseguiu concluir o ensino secundário.
O Brasil, por sua vez, investe hoje cerca 10% da renda em educação, uma quantidade considerável, mas insuficiente para suprir todas as necessidades educacionais da população. Segundo um estudo realizado pela Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE, sigla em inglês), publicada em 2007; cerca de 3,9% do PIB brasileiro foi investido no ensino, enquanto os Estados Unidos, o país que ficou no topo da pesquisa, gastou cerca de 7,4% do produto interno bruto.

Ainda de acordo com o estudo realizado pela OCDE, o país destacou-se por apresentar um dos piores investimentos com o estudante, à frente somente da Rússia que injeta 3,6% do PIB na área educacional. Além da insuficiência dos gastos públicos foi possível observar a desproporção de investimentos no ensino básico e no superior. O Brasil também é conhecido por investir mais na educação superior do que na básica. No ano da pesquisa publicada em 2007 foi investido nas instituições públicas brasileiras cerca de R$ 2.000 por aluno da educação básica e cerca de R$ 18.000 para os de nível superior, o equivalente a nove vezes mais. Um distanciamento grande se comparado com economias desenvolvidas, onde os investimentos apresentam em média o dobro do destinado ao nível superior. O reino Unido, por exemplo, no mesmo ano, investiu o equivalente a R$ 12.000 por aluno da escola pública e R$ 22.000 nas universidades.

Modificações concomitantes em diversos outros setores são necessárias para melhorar o acesso ao ensino. A prioridade na educação básica, a reestruturação tecnológica nas escolas, qualidade das aulas e uma política que incentive a extinção do analfabetismo podem ser soluções para o déficit educacional brasileiro. Além de realização de treinamentos com os professores e aumento de salários nos âmbitos municipais e estaduais.

Quanto antes a educação chegar até as pessoas, mais barato será para o país, uma vez que ensinar para pessoas mais velhas leva mais tempo e a conseqüência é aumento de gasto. Além disso, o conhecimento adquirido nos primeiros anos de idade serve como base para a assimilação de conteúdos complexos, e precisa ser tratado como prioritário.
O desempenho paradoxalmente desigual dos alunos de escolas particulares em comparação com os das públicas na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2008 também serviu como indicador para a necessidade de mudança no sistema em atual. Em entrevista concedida para o jornal O Globo Online, no início de 2009, o ministro da educação Fernando Haddad afirmou ser insuficiente o investimento público no ensino médio.

“Em 2007 o investimento foi de R$ 1.500 por aluno nas redes públicas. Isso pode explicar o abismo entre os estudantes de instituições privadas e públicas, já que o valor é quase igualado ao investimento feito mensalmente pelos pais de alunos das escolas privadas. O ensino médio teve um incremento muito importante por parte dos governos estaduais, com aumento de 50% de 2005 para 2007. Mas, ainda é muito pouco, o que é investido anualmente praticamente se compara a uma mensalidade das melhores escolas particulares do país”, declarou o ministro. (GOMES & WEBER, 2009).

Esse entrave social, causado pela desestruturação no ensino básico e médio fazem aumentar ainda mais a desigualdade e o analfabetismo funcional. Os 14 milhões de brasileiros sem estudo algum representam cerca de 8% da população, essa fatia da pirâmide social contribui a baixa produtividade e o funcionamento da econômia.
Para o economista americano James Heckman, Premio Nobel em 2000, a opção pelo ensino custa algo de um décimo do gasto com segurança. Mais um indicador das vantagens de transferir a renda pública para o conhecimento. Ainda de acordo com os cálculos de Heckman, cada dólar gasto na educação de uma pessoa significa que ela produzirá algo como 10 centavos a mais, por ano, ao longo de toda a vida.

Pode-se afirmar que uma população bem educada gera empregos, aumenta a produção do país, a renda e os gastos em diversos segmentos. É visível a necessidade de investimentos em conhecimento, sendo essa uma variável determinante para a diminuição da desigualdade. Segundo SACHS & LARRAIN (1998), as taxas de desemprego medem a quantidade de pessoas que estão sem emprego e que estão à procura, esses índices estão diretamente relacionadas à quantidade de produção.

O economista Gustavo Ioschpe; mestre em economia internacional e desenvolvimento econômico pela Universidade de Yale (EUA), e consultor do Ministério da Educação (MEC); afirma que no seu estudo descobriu ser a educação o principal fator para explicar a desigualdade. De acordo com Ioschpe, a educação no Brasil responde a 50% da diferença de renda no país. (KADAOKA, 2005)

Uma aceleração no nível de atividade interna, através do acesso e compreensão das informações pode aumentar a demanda por circulação de moeda interna, diminuindo assim o endividamento e podendo influenciar na queda das taxas de juros. Os resultados de uma mudança de comportamento, como o aumento da produção através de uma educação mais abrangente e qualificada não podem ser previstos com exatidão, mas a escolha pelo aumento da qualidade educacional do país acarretaria, sem sombras de dúvida, um ganho social expressivo.
A transferência de renda no país nem sempre é coerente. Neste ano o governo anunciou investimento de R$ 17,47 bilhões para custear o aumento dos salários dos funcionários públicos federais, que são mais de 2 milhões de pessoas. Um valor que poderia ser aplicados em instalações tecnológicas e estruturais nas escolas foi direcionado para uma classe, cuja renda é considerada alta, em média de três vezes maior do que o da maioria da população.
A distribuição de recursos deveria ser reavaliada, levando em consideração as vantagens que a melhora na educação gera para toda a sociedade. As políticas, por sua vez devem ser analisadas com critérios de distribuição mais equilibrados.

Há, com efeito, uma incerteza substancial sobre os efeitos das políticas macroeconômicas. Essa incerteza deve levar os formuladores de políticas a serem mais cautelosos. (...) Quanto mais altos forem os níveis de desemprego ou inflação, mais ativas devem ser as políticas. Mas, devem ficar fazendo sintonia fina, isto é, tentar atingir tanto um nível constante de desemprego, quanto um crescimento constante de produto. ( BLANCHARD, 2001, p.536).

Um incremento do emprego, criação de novas vagas resultam, entre outros fatores, num aumento da renda e aceleração do consumo interno. Essa movimentação influencia na demanda por moeda e podem, também, interferir no preço do dinheiro, através de empréstimos.
O aumento da oferta de moeda provoca a diminuição da taxa de juros. O aumento da demanda por moeda, em virtude, digamos, de um aumento do produto, acarreta o aumento da taxa de juros. (BLANCHARD, 2001, p.422).

Os investimentos em conhecimento acarretariam consequências diversas, no mercado e na sociedade, mas os impactos podem ser considerados, em grande maioria, como positivos.
O resultado do aumento da demanda por moeda e das taxas de juros, podem atrair os investidores internacionais, uma vez que os títulos da dívida brasileira tornam-se mais rentáveis. Em negociação de títulos com investidores internacionais, por exemplo, gera uma alta do valor da moeda brasileira, a apreciação do real se torna evidente.Por outro lado, a apreciação inicial da moeda tem de ser tal que a depreciação futura esperada compense o aumento da taxa de juros doméstica.

O consumo e os gastos do governo claramente sobem – o consumo por causa do aumento da renda, os gastos dos governo por hipótese. O que acontece com o investimento é ambíguo, o investimento depende tanto do produto quanto da taxa de juros: I = I (Y,i). Por um lado, o produto sobe e provoca o aumento do investimento. Por outro, todavia, a taxa de juros também sobem, fazendo com que o investimento caia. As importações líquidas dependem do produto do resto do mundo, do produto interno e da taxa de câmbio (BLANCHARD, 2001, p. 427).

Ao privilegiar a educação com maiores investimentos em conhecimento, em estrutura escolar, reformulando o ensino fundamental e médio e ampliando também as vagas nas universidades, o governo estará contribuindo para o uso racional da renda gerada pelos impostos. Além de garantir um melhor bem estar social, o aumento da prioridade dada à educação é capaz de diminuir a desigualdade social e colocar o país no rumo do desenvolvimento intelectual e econômico.

REFERÊNCIAS:

BLANCHARD, Olivier – Macroeconomia: teoria e política econômica, Brasil, Elsevier,2001.

GARCIA, Fabio Gallo.Como planejar a educação- São Paulo: Publifolha, 2001.

GOMES, Rodrigo & WEBER, Demétrio. Investimento Público em Ensino Médio ainda é insuficiente, avalia Haddad. Jornal O Globo, Rio de Janeiro. 29 abr 2009. Disponível em:
<http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2009/04/29/investimento-publico-no-ensino-medio-ainda-insuficiente-avalia-haddad-755499151.asp> Acesso em 28 mai 2009.

KADAOKA, Fernando. A educação no Brasil aumenta a desigualdade. IstoÉ Online 05 out 2005. Disponível em:
<http://www.terra.com.br/istoe/1877/1877_vermelhas_01.htm> Acesso em 28 mai 2009

OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development). Education at a Glance 2007. Disponível em:
http://www.oecd.org/document/30/0,3343,en_2649_39263294_39251550_1_1_1_1,00.html#summary> Acesso em 29 mai 2009.

SACHS, Jeffrey, and LARRAIN, A.B. – Macroeconomia, Brasil, Makron Books, 1998.